Ciúmes

Photo by Kat J

Todo dia, antes do sol nascer, o Jipe já estava carregado de galões de leite, pronto para as entregas de rotina. Junto com o pai sempre havia o mais velho, mas naquela manhã algo estranho aconteceu. O rapazinho acordou assustado com um raio de sol ameaçando pela fresta da janela do quarto e correu em busca do pai.

"Mãiê... Cadê o pai?"

"Ô filho, ele tá saindo agorinha com o Jipe, escuta o barulho."

"Ele me esqueceu?"

"Não, filho. Hoje ele vai levar seu irmão. De agora em diante vocês vão revezar as idas à cidade com o pai."

O garoto se enfureceu. Sem dizer uma palavra, saiu do jeito que estava, descalço e de pijamas, e disparou atrás do Jipe pela estrada afora. A poeira levantada impedia o pai de ver o menino desembestado atrás deles, berrando. E ele correu, correu e correu até perder o fôlego. Sentou-se na beira da estrada, tinha o rosto todo lambuzado de pó e lágrimas. Decidiu continuar caminhando até a cidade, com sérias intenções de nunca mais voltar.

A mãe ficou desesperada quando percebeu que o rapazinho não aparecia. Ela só percebeu o quanto eles o haviam ferido quando viu seus olhos de espanto e de fúria antes dele sumir. E agora, o que poderia fazer?

Correu ao quintal do sogro e pediu emprestada a charrete. Demorou quase meia hora para arrear o cavalo e partir em busca do fujão.

Encontrou o marido e o filho menor na cidade, já na última entrega do dia. Contou-lhe o ocorrido e eles elaboraram uma estratégia para tentar achar o filho perdido. Mas, não obtiveram sucesso. Já haviam percorrido a pequena cidade várias vezes e alertaram todos para noticiarem-lhes caso o encontrassem. A tarde caía e eles precisavam voltar para o rancho.

No caminho ela clamava a Deus para cuidar do seu menino, e rogava-lhe perdão pela falta de sabedoria com ele. Os olhos já estavam inchados, de tanto chorar.

Ao chegarem no rancho apressaram-se para a sua casinha, vazia. Estavam ali ainda em pé, angustiados, quando o avô chegou de mãos dadas com o garoto cabisbaixo, pois já havia escutado um sermão daqueles!

Ah... que festa! Eram tantos abraços, beijos, risos, exclamações, que ele estranhou. Afinal, esperava uma surra, isso sim. Seus pais conversaram com ele, e lhe reafirmaram o imenso valor que ele tinha. O garoto abriu um sorriso largo e os abraçou. Depois, chamou o irmão para brincar.

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