Perda

Photo by Aditya Romansa 
Do rancho até a pequena cidade mais próxima levava-se uma hora à pé em chão poeirento. Ainda bem que o avô tinha uma charrete e eles a usaram para chegarem à maternidade em tempo.

O bebê adiantou muito e nasceu mirrado. O doutor lhes assegurou, porém, que ele poderia receber alta em dois dias junto com a mãe. Era outro menino.

O mais velho, agora já não mais tão magrelo admirava-se do pequenino, principalmente do seu choro fraco. Era tão miúdo ali no meio do berço e parecia respirar ofegante. De vez em quando sorria, e ele se indagava por quê.

Numa noite particularmente longa e gelada, o bebê relutava em dormir no berço. As suas minúsculas mãos e os pés permaneciam gelados, mesmo enrolados com sapatinhos e luvas de tricô. Ela o abraçava e esfregava tentando aquecê-lo, em vão. O bebê respirava acelerado, cada vez mais ofegante, lançando vez ou outra um som agudo do peito. Amanheceu já sem vida, no colo triste de sua mãe.

Nela abriu-se uma grande lacuna, que jamais deixaria de existir. Nem o tempo, amigo de quem sofre, impedia-lhe de sempre reviver a dor daquela perda.

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