Eletrocutado

Sobre o grande terreno de terra que abrigava o armazém passavam os fios de alta tensão.

As crianças que ali brincavam sabiam que era perigoso tentar soltar pipas presas na fiação, embora algumas tentassem fazê-lo lançando seus velhos tênis, em vão. Ali ficavam pendurados, como se numa exposição de mau gosto.

Os irmãos mais velhos ensinaram às meninas o que a enorme placa com duas caveiras pregada num dos postes queria dizer. A mais nova sempre tinha uma indagação, porém:

"Como é que os passarinhos pousam nos fios e não morrem?"

Os meninos não lhe davam uma explicação convincente. O mais velho vinha com um papo de corrente, circuito, que para ela não fazia sentido algum...

Certa vez, chegaram da escola e encontraram um tumulto bem em frente ao armazém. Havia um cheiro de algo queimado no ar. As pessoas se amontoavam e eram restritas por policiais, as luzes dos carros de bombeiros piscavam. Foi então que elas viram um homem esticado num fio daqueles, o corpo enegrecido e as pernas dependuradas, acompanhando as fileiras dos sapatos velhos...

Aquela imagem chocava tanto que embrulhava o estômago.

Um funcionário da Companhia de Eletricidade  havia sido eletrocutado. Para resgatá-lo o bairro todo ficou sem luz por muitas horas. Quem ele era, nunca souberam, mas até hoje sua morte é lembrada, trazendo um pesar e uma prece para que Deus o tenha num bom lugar...

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