Fotógrafo

Os anos setenta foram muito bons para a agricultura mineira, acelerando a expansão dos negócios com fertilizantes na região leste do Estado. A fábrica de Adubos crescia vertiginosamente e com ela a qualidade de vida dos funcionários.

Perto da rodoviária surgia um bairro com casas um pouco maiores e espaçosas, e a família passou a morar ali, depois de dois anos. A casa que alugaram possuía três quartos grandes, uma edícula pequena e um quintal cimentado com canteiros próximos aos muros, onde a mãe tratou de plantar temperos, alface e taioba.

O mais velho, aos catorze anos, passou a estudar à noite depois que começou a trabalhar na fábrica de adubos com o pai. O outro menino avançou para a quarta-série aos trancos e barrancos, afinal ficar enfiado nos livros não era com ele não. As meninas agora também já iam ao grupo escolar municipal logo cedo de manhã, mas continuavam tendo a tarde toda livre para suas brincadeiras e fantasias.

Na frente da casa havia uma varandinha que era protegida por grades com desenhos de estrelas. Ela se transformava constantemente numa espaçonave que as meninas pilotavam nas suas muitas explorações planetárias.

Certa vez, a mãe avisou os filhos que receberiam a visita de um fotógrafo em casa. Enquanto ela separava as melhores mudas de roupas e sapatos para arrumar as crianças, a menina mais nova não teve dúvidas. Queria estar muito bonita para as sessões de foto, por isso correu para o banheiro, pegou uma tesoura e cortou uma parte do seu cabelo e franja. Por sorte, ela só viu necessidade de aparar as madeixas de um só lado. Por isso no seu álbum todas as fotos são de um só perfil.

A outra menina não gostou nada dessa ideia de fotos e saiu de boca fechada em todas as poses, com vergonha de mostrar o sorriso banguelo próprio para garotinhas de sua idade.

Enquanto o filho mais velho foi dispensado, graças às suas responsabilidades diárias, o outro menino teve que  se deixar fotografar sozinho, com uma, com outra, com as duas, sorrindo, e fingindo estilo  mesmo vestindo calça de tergal feita pela mãe, e sapatos furados na sola.

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