Pedregal

Agora tornava-se cada vez mais rara a reunião de toda a família em torno da mesa, mesmo aos finais de semana.

O mais velho já fazia o "TG" (Tiro de Guerra) da cidade, e como tinha prosseguido nos estudos completando o segundo grau, assumiu como cabo a chefia de um grupo de soldados. Trabalhava e se desenvolvia na empresa de adubos, e era figurinha carimbada nas baladas de sexta-feira que viravam madrugadas a dentro.

O seu irmão, um pouco mais novo, começou a estudar à noite e trabalhar também na mesma empresa, como que seguindo os passos do mais velho. Ele o admirava, principalmente quando o via cercado de amigos, garotas, sempre brilhando e liderando as pessoas em sua volta.

Mas, o afastamento do irmão mais velho revelou que Dim tinha índole diferente. Era mais caseiro, sossegado e menos atirado em busca de aventuras. Para ele bastavam um bom jogo de futebol na TV e uma bacia de laranjas, que chupava aos montes.

O pai nunca demandava a presença do mais velho em casa, por isso ele estranhou a sua exigência naquela sexta-feira ao final do expediende:

"Quero que esteja em casa para almoçarmos juntos, amanhã",  o pai falou num tom autoritário, não deixando margens para qualquer desculpa.

No sábado, enquanto a mãe preparava o frango ensopado com quiabo e angu, o pai circulava na cozinha numa ansiedade notória. Parecia não ver a hora dela servir esse almoço...

À mesa, seu comportamento também era incomum. Nem deixou servir o pudim de leite condensado, que ficou enformado na geladeira.

"Vamos dar uma volta, todos, agora!" ordenou à família, sem muitas explicações.

Só quando todos já estavam no carro é que o pai começou a falar:

"Hoje, conquistei um grande sonho, e quero mostrar para vocês".

Quando parou o carro, depois de uma volta de vinte minutos, encontravam-se num bairro novo e afastado, conhecido como Pedregal. Com ruas largas em paralelepípedos, parecia um lugar desabrigado ainda. Havia uma ou outra casa erguida no quarteirão, perto da que estava na frente deles.

˜Vamos entrar?", o pai falou num sorriso largo.

Demoraram alguns segundos para compreenderem o que ele queria dizer com isso. Estavam conhecendo sua primeira casa própria, novinha em folha, ampla e arejada, ainda com cheirinho de tinta fresca.


O que se seguiram foram momentos de grande alegria, risos, e euforia. Trabalho, dedicação e fidelidade finalmente recompensados, com ajuda da generosa mão de Deus.

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