E agora, doutor?

Lá do berço, ouvia-se o chorinho do neném. Era fim de tarde e ele despertava de uma soneca, esfomeado.

"Meninas, cuidem um pouquinho do seu irmão, até eu acabar de bater essa broa!" a mãe ordenou.

O bebê abriu um sorriso ao vê-las se aproximando e estendia os braços para que o tirassem do berço.  Elas haviam descoberto que o irmãozinho se aquietava enquanto tivesse uma bolacha de maisena nas mãos e usaram essa estratégia para distraí-lo no quarto.

Quando a mãe finalmente chegou, encontrou-o todo vestido com roupas das meninas e com o rosto maquiado. Pensou em dar uma bronca nas filhas mas não se conteve, e caiu na gargalhada diante da cena cômica.

Era sábado, Dim havia chegado de uma partida de futebol e descansava no sofá, chupando umas laranjas. O pai assistia um faroeste na sala, e as meninas tiravam todos os livros da estante para montar uma casinha de bonecas no tapete e sobre a mesinha de centro. O bebê havia acabado de mamar e ainda estava calmo no colo da mãe.

Percebendo a família reunida, ela cutucou o marido:

"Vamos contar pra eles agora?"

"Vá em frente, meu bem." ele murmurou.

"Dim, meninas, temos novidades. Vamos ter outro bebê na família..." o rosto dela ficou quente e vermelho.

"Mas, mãe, eu achei que você não podia mais ter filho. Você não amarrou suas trompas?" Dim retrucou.

"Pois é... mas eu estou grávida mesmo assim..."

Aquela notícia se espalhou rapidamente na cidade, e pôs em alvoroço algumas das mulheres que recentemente haviam se submetido à laqueadura com o mesmo obstreta. O telefone do consultório disparou e a recepcionista voltou para casa com dor de cabeça. As mulheres queriam uma explicação para o ocorrido, temendo a mesma sorte.

Durante dois meses, por onde a mãe passava, ouvia-se sussrros e cochichos. Um bebê no colo, outro na barriga. Mas, ela não duvidava de que Deus controlava seu destino e que a havia abençoado, mais uma vez.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas