Surpresa

Que bebezinho bonito e guloso ele era! As meninas não saíam de perto da mãe e faziam questão de cuidar do pequeno irmão junto com ela, logicamente mais atrapalhando do que ajudando... E o que mais gostavam de ver era a hora das mamadas.

A mais nova não resistiu e pediu para experimentar um pouquinho do leite que jorrava da mãe e logo se decepcionou com o gosto esquisito, insonso, demonstrando claramente o desprazer na careta que fez.

A passagem para o ano novo se aproximava, e eles se preparavam para ir à casa do avô, que a essas alturas já havia se mudado para a cidade vizinha. Não possuía mais forças para cuidar do sítio sozinho, graças a um enfisema pulmonar que avançava com os anos.

Um pouco antes de saírem para a festa, o pai e a mãe chamaram as meninas e Dim na sala. Eles costumavam sempre lembrar seus filhos das boas maneiras que deveriam mostrar e ter, especialmente com os mais velhos, e os três achavam que esse seria o tópico daquela breve reunião.  Por isso, estranharam suas faces tristes e nervosas enquanto lhes falavam.

"Nem sei como explicar isso para vocês, mas é preciso que saibam. Seu irmão mais velho e a namorada esperam um filho..." o pai falou pausadamente, enquanto a mãe sacudia o irmãozinho no colo, com lágrimas nos olhos.

Ele continuou falando mais coisas sobre certo e errado, sobre pular etapas na vida, obedecer a vontade de Deus, mas a filha mais velha não prestou muito a atenção. Ela começou a vislumbrar um outro bebê na casa, e de repente se deparou com a realidade mais incrível: ela seria titia... e mais, seus pais se tornariam avós!

Sem se conter, e sem deixar que o pai terminasse seu discurso, ela deu um pulo do sofá, correu em sua direção para abraçá-lo, gritando:

"Vovô, vovõ! Pai, agora você vai ser vovô!!!"

Mas, antes que ela o alcançasse, o pai se levantou e ergueu o tom da voz, numa raiva que ela jamais tinha visto antes.

"Não fale mais isso! Eu não quero ouvir isso, entendeu?!" ele gritou, saindo da sala em seguida.

Aquela foi a festa mais triste para a menina... Nunca havia brigado com seu pai e não conseguia sequer entender o por quê daquela reação. Era muito criança ainda para perceber o coração ferido da mãe e do pai. Não sabia que para eles era muito difícil encarar a gravidez fora do casamento, principalmente perante os irmãos da igreja, e numa cidade pequena do interior.

Passaram-se dois dias, e a mágoa não permitia que ela falasse mais com o pai, nem ficar no mesmo ambiente em que ele se encontrava, e isso a devorava por dentro.

No terceiro dia, ele chegou do trabalho e a convidou para um passeio de carro e comprar um picolé de côco, que ele sabia ser o seu favorito. Ela já não aguentava mais ficar distante dele, e por isso aceitou o convite, ainda um pouco ressabiada.

No caminho, ele foi abrindo seu coração, confessando que não conseguiu se alegrar em ser avô naquele dia, mas que estava arrependido disso. E lá estava aquele grande homem, pedindo perdão a uma menina... (e recebendo o perdão de Deus).

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