Conservatório

"Você vai ficar responsável pelas meninas, entendeu?" Os pais falaram, enfaticamente.

Dim já era um rapaz a essas alturas, dirigindo orgulhosamente pelas ruas da cidade um opala branco, com a namorada, quase noiva, ao lado. E acatou ao pé da letra a ordem recebida, não dando paz às meninas, que nem brincar mais à tarde podiam, tamanha a preocupação do moço!

Os pais e os bebês tinham viajado para São Paulo, visitar o mais velho e conhecer o novo escritório da empresa. Iam permanecer uma semana por lá.

Na quarta-feira, Dim chegou do trabalho e não encontrou uma das meninas, a mais velha, em casa. Com o coração disparado, perguntou à mais nova sobre o paradeiro da irmã.

"Ela foi para a cidade vizinha, ué!" A garota respondeu tranquilamente, na face uma expressão de lógica.

Dim não esperou ela falar mais nada e cantou os pneus do opala. No caminho, pegou a namorada e seguiu viagem, de cerca de vinte minutos (que Dim fez em dez) até a cidade vizinha, a mesma em que viveram anos atrás.

A primeira parada que fez foi na casa do avô. A menina não estava lá.

"Já procurou no conservatório?" O avô deu a idéia, que Dim acolheu.

Ele teve dificuldade de estacionar, já que a rua da escola de música estava tomada de carros. Isso ajudou a aumentar ainda mais sua fúria. O prédio enorme escondia muitas salas, e ele puxava exasperado a namorada abrindo subitamente as portas e interrompendo muitas aulas.

Por fim, chegou no auditório. As cadeiras estavam todas tomadas, muitos pais e familiares haviam comparecido para a audição especial que acontecia naquele dia. Era formatura de alguns alunos de piano, e a bandinha musical havia sido escalada para uma apresentação.

Do fundo, Dim enxergou a irmã cantando e tocando seu instrumento de percussão (coquinhos que se batiam em ritmo devidamente sincronizado).



Ele parecia ignorar o mundo ao redor e gesticulava para ela, chamando-a ao seu encontro imediatamente. A menina, obviamente, não o atendeu e continuou sua apresentação, já envergonhada da comoção que o irmão causava.

Não teve jeito, assim que a música acabou, ela precisou sair. Ninguém conseguia fazer Dim se acalmar.

No carro, de volta para casa, a menina ouviu repetidamente lições sobre não mais sair sem avisá-lo. Ela realmente não conseguia ver o que tinha feito de errado e sentia-se injustamente punida.

Frustrada e furiosa, esperou pôr os pés em casa para começar com Dim um terrível bate-boca, que levou a vizinhança toda para fora.

A mais nova tomou as dores da irmã e quase saiu no tapa com Dim.

A tia precisou intervir na arruaça, e muitas horas depois colocou ordem na casa, reconciliando entre si os irmãos.

Com a cabeça fria, cada um pôde reconhecer seu erro e, no dia seguinte, riam à bessa da cena que já havia virado motivo de piadas.

Comentários

  1. Olá Sônia, quanto tempo, você sumiu, esse semestre no seminário estou tendo a disciplina de liturgia, lembrei de você.

    Abraços
    Tiago

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  2. Aahhhhhhhhhhhhh..consigo visualizar muito bem essa cena!!!!!!!!!!!!!!!rsrsrs;;;; Bjs.Su

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