Pequenos Infratores

O pai comprou dois terrenos ao lado da sua casa, e num deles já erguia um pequeno prédio. No andar de baixo iria abrir um salão para as festas da família,  em cima um apartamento com sala, cozinha, quarto e suíte para o mais velho e sua família. As coisas não iam muito bem para ele nesse começo, como era de se esperar... abrir mão, de súbito, dos prazeres da juventude não era fácil. O fruto que amadurece às pressas não tem lá aquele sabor.

Era janeiro, um calor de matar! Férias escolares quase terminando, e as meninas não queriam desperdiçar nenhuma oportunidade. A turma da rua era grande, e as brincadeiras variavam a cada dia, piques, teatrinhos, jogos, bicicletas, patins, bettis, pic-nics e aventuras em busca de supostas cachoeiras numa picada que ainda restava no bairro.

Às quartas, a partir das 6 da tarde, a rua ficava apinhada de carros. Muitos homens saíam do trabalho para bater uma bola nas quadras do ginásio poliesportivo, que ocupava quase a quadra toda. Naquela noite, a molecada extrapolou. Com a imaginação fértil, os pré-adolescentes bolaram uma competição para ver quem conseguia colecionar mais plaquinhas com nomes dos carros estacionados ali. A estratégia era simples: um ficava de olho, outro retirava a plaquinha com ajuda de uma chave de fenda.

Poucos minutos depois, lá estavam eles contando vitórias e rindo à toa. "Belina", "Caravan", "Opala", "Fusca", "Fiat", "Kadetti", "Monza", "Marajó", "Voyaje" e "Del Rei"... Tinha placa de todo jeito.

Mas, a alegria dos pequenos infratores durou pouco. Assim que as partidas terminaram, os donos dos carros se alvoroçaram e chamaram a polícia, que não precisou ser especializada para descobrir o bando sentado na calçada, ainda discutindo quem seria o vencedor do torneio.

Depois de uma boa bronca das autoridades e dos pais, além de duas semanas de castigo, a turma havia aprendido a respeitar o patrimônio alheio e nunca mais se meteu em confusão parecida.

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