Reencontro

Os tios moravam em Brás de Pina, bairro de classe média baixa que surgiu, como a maioria dos bairros do Rio de janeiro, em função da malha ferroviária. 








Trabalhavam na Ciferal, empresa de ônibus urbano, e para chegar lá passavam as estações da Penha, Olaria, desembarcando em Ramos. 


Cortado pela linha férrea, Ramos possuia uma praia que até início dos anos 80 ainda era boa para banho. Praia que, mais tarde, ficou batizada de Piscinão.





A violência das grandes cidades pode adoecer as pessoas, e um dos tios, após inúmeros assaltos naqueles percursos diários, começou a apresentar sintomas de pânico, muito difíceis de diagnosticar naqueles dias. 


Sem tratamento conhecido, a solução encontrada foi a de abandonar a cidade maravilhosa e voltar às raízes.


Então, o tio, sua esposa e filhinha vieram para a edícula desocupada, e ali permaneceram até que sua casa fosse erguida num dos terrenos ao lado, com a ajuda do generoso cunhado.


A primeira parte da construção andou rápido. Nela as meninas brincavam todo fim de tardinha. No reino da fantasia, as paredes cruas formadas por blocos de tijolo se transformavam em ruínas de um antigo castelo, cujas torres escondiam duas lindas princesas.


Durante o jantar, as duas famílias trocavam histórias em torno da mesa. Numa daquelas noites, o pai tomou conhecimento que sua cunhada tinha um grande sonho.


"Jamais conheci meu pai. Sei que ele mora em Vitória, mas perdi contato com ele ainda menina, quando parti para morar no Rio, na casa da minha madrinha."  Lágrimas escorriam pela sua face mulata.


De posse apenas do nome completo do homem, alguns meses depois, lá estava ela abraçando seu pai. Dim teve a oportunidade de testemunhar esse fato, pois acompanhou o pai e a tia na viagem até um pobre bairro da capital do Espírito Santo, para o esperado reencontro. Desde então passou a enxergar seu pai com outros olhos, apreciando mais intensamente cada momento com ele.


Poucos dias depois, a tia receberia a notícia, em telegrama:


"Pai falecido esta madrugada. Enterro cemitério público Vitória, 16h." 


Apesar da tristeza, ela podia agora chorar em paz uma saudade concreta...







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