Detetive por um dia


As ruas de .paralelepípedos do Pedregal sacudiam vigorosamente a caloi dourada que conduzia as meninas ladeira abaixo. A mais velha pedalava e a mais nova ia na garupa, em pé, como se chamasse para si o perigo.

A "baique" tinha uma marca bem abaixo do guidom com as iniciais dos nomes das meninas, que elas mesmas fizeram, muito embora não houvesse outra no bairro que se parecesse com ela.

Quando a noite caía, a caloi era guardada no fundo da garagem, amarrada apenas por uma cordinha branca de varal. De lá só saía depois que as meninas chegassem da escola, almoçassem e fizessem o dever de casa.
E assim se seguia a rotina, até que numa noite particularmente quente, descobriu-se que a caloi havia sido roubada.

O desespero das garotas era total, e comoveu o pai.

"Venham, entrem no carro. Vamos dar uma volta pela cidade pra ver se encontramos a bicicleta de vocês." Ele falou já com as chaves na mão.

E lá foram os três na velha caravan verde abacate, devagarzinho por todas as ruas da pequena cidade. Depois de meia-hora,  quando já faziam o caminho de volta para casa, avistaram-na!

"É ela, pai! É ela!!" Gritavam e pulavam no banco traseiro.

A caloi estava encostada numa parede ao lado de um bar cheio de homens simples às voltas com suas bebedeiras e tacadas de bilhar.

O pai estacionou, deixou as meninas no carro trancado, examinou o guidon da bicicleta e seguiu para o bar.

"Quem é o dono da bicicleta que está la fora?" Perguntou em voz grave e solene.

O dono do bar saiu de trás do balcão.

"Sou eu, senhor. algum problema?"

"Quando foi que o senhor comprou essa caloi? "

"Hoje mesmo. Na verdade, eu a troquei por um aparelho de som. Negócio entre vizinhos, sabe como é?"

O pai conseguiu o endereço do tal vizinho e foi até onde o rapaz morava. Era num alto de um morro o casebre, numa rua estreita e escura. As meninas sozinhas novamente no carro tiveram um medo enorme e não pararam de orar o "Pai Nosso", aflitas com a demora do pai. Que alívio sentiram ao verem seu vulto surgindo das sombras. Parecia trazer alguma coisa em suas mãos. Era o aparelho de som.

Voltaram ao bar. O pai desceu novamente sozinho e voltou poucos minutos depois conduzindo a caloi.

Que festa! As meninas não paravam de rir, de pular, de contar a todos os amigos a aventura daquela noite. Tinham diante de si o seu prêmio especial: mais do que a velha caloi tão querida, o seu velho mas super-pai!

Comentários

  1. E até hoje, se precisarmos, ele vira super.... Continua velho (risos), mas SUPER... bjs

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